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IA para cárie: o número que a manchete não mostra é o recall

Um modelo brasileiro aprendeu a numerar dente e a apontar cárie na mesma radiografia. Numa das duas ele é quase perfeito. Na outra, não.

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Numerar dente: praticamente resolvido

Com 18.836 dentes anotados, o melhor modelo acerta a numeração FDI com F1 de 0,978. É tarefa de reconhecimento de forma e posição, e a máquina vai bem. Onde ela tropeça é previsível: os terceiros molares. Os autores explicam por quê — são os que menos aparecem na base, e ficam em região onde os vizinhos atrapalham.

Achar cárie: o número é outro

Aqui a acurácia diz 0,939 e parece ótima. Mas o dado que interessa a você é o recall: 0,914. Traduzindo para a cadeira: de cada 100 dentes cariados, cerca de 9 não são apontados. No modelo mais fraco testado, o recall cai para 0,866 — cerca de treze passam batido. Acurácia mede o acerto geral; recall mede o que a máquina deixa escapar. São coisas diferentes, e só uma delas te faz perder lesão.

O limite está escrito no artigo

Os próprios autores registram que a panorâmica não é o exame padrão-ouro para lesão inicial ou proximal — menor resolução espacial e sobreposição anatômica. Registram também base pequena e desbalanceada, ausência de pré-processamento e que o modelo não classifica severidade nem grau de cavitação. Nada disso é ressalva de quem lê de fora. É o que está no texto deles.

O recado: Eles escrevem que os modelos atuais ainda são uma espécie de caixa-preta, que nenhum modelo é perfeito e que a decisão clínica continua nas mãos do cirurgião-dentista. A ferramenta não está disponível para uso clínico — segue em aperfeiçoamento. Quando chegar uma que esteja, pergunte pelo recall antes de perguntar pela acurácia. Fonte: Jornal da USP, 14/08/2026; artigo em PLOS Digital Health, DOI 10.1371/journal.pdig.0001074.